
Chegamos à 23ª edição do Festival de Cinema de Cuiabá – CINEMATO 2026.
Bem que poderia ser a 34ª, não fossem as interrupções, os vazios, a falta de continuidade nas políticas públicas para a cultura. Mas estamos aqui. Mais uma vez. E isso já é uma forma de resistência.
Esta edição marca uma mudança – ainda timida, é verdade – na estrutura do festival. Um movimento planejado para os próximos anos, que passa por alterações nas grades de programação, pela ampliação das nossas ações e, principalmente, pelo desejo de abrir ainda mais janelas para a produção mato-grossense. Queremos oficinas mais potentes, debates mais provocativos, e que faça o audiovisual do nosso estado ecoar com mais força no cenário nacional.
O tema que escolhemos – Migração: mobilidade humana e mudanças climáticas – nasceu ainda durante a produção da edição passada, entre uma conversa minha com o nosso curador e criador do festival Prof. Dr. Luiz Borges. E segue urgente. Fala do pertencimento esgarçado, das perseguições, das guerras, do clima que expulsa gente de sua própria terra. Fala de corpos que precisam migrar para viver – ou sobreviver – por conta da sexualidade, da cor, da etnia. Fala, quase sempre, de uma imposição autoritária: a de que alguns não podem ficar.
Mas há também a migração que escolhe, que parte para levar adiante. É dela que nos fala nosso homenageado. Amauri Tangará migrou de Paranavaí para Mato Grosso, e de Mato Grosso para o mundo. Levou na bagagem os saberes daqui, formou mais de mil olhares em três continentes, escreveu, dirigiu, inventou. Fez da travessia um gesto de troca, não de perda.
Recebemos este ano 598 filmes inscritos. Um número expressivo, mas o que mais impressionou a curadoria foi a qualidade: técnica apurada, histórias que arrebatam, um cinema brasileiro vivo e pulsante. O trabalho foi hercúleo – e prazeroso. Porque é isso que um festival como o nosso precisa testemunhar: que o audiovisual deste país segue inventando jeitos de existir, mesmo quando tudo parece querer apagá-lo.
Que está 23ª edição seja travessia. Que os filmes nos desloquem, que os debates nos inquietem, que as trocas nos transformem. E que, no fim, a pergunta que fique não seja “de que lado da linha você está”, mas sim: o que essa linha pode nos ensinar sobre atravessá-la juntos?
Bom festival a todos e todas.