
Nesta edição, o tema convida a uma reflexão urgente sobre os deslocamentos humanos em massa que marcam nosso tempo.
Através das lentes do audiovisual contemporâneo, propomos desnaturalizar as narrativas hegemônicas que criminalizam o migrante, incitando um olhar diferenciado que valorize suas histórias e lutas. O festival se torna um palco para dar voz aos próprios sujeitos envolvidos nesses processos – refugiados, deslocados ambientais, trabalhadores itinerantes –, protagonistas de suas próprias jornadas em busca de dignidade, sobrevivência e futuro.
No momento em que testemunhamos crises humanitárias globais e o endurecimento de políticas de fronteira, é fundamental investigar as raízes históricas desses fluxos. A migração raramente é uma escolha livre; é frequentemente impulsionada por conflitos armados, pela desigualdade social extrema, por projetos de desenvolvimento predatórios e pela crise climática – heranças diretas e indiretas de estruturas coloniais e neocoloniais de exploração. Olhar para o migrante é, também, olhar para as consequências de um sistema global que produz desenraizamento.
Não podemos pensar a migração de forma isolada. Ela é um fenômeno intrínseco à história da humanidade, mas também um sintoma brutal das assimetrias do poder global. A colonialidade não terminou; ela se reconfigurou em controles de fronteira, em vistos de entrada, na exploração da mão de obra migrante e na hierarquização de vidas consideradas “merecedoras” de proteção ou descartáveis. Descolonizar o olhar sobre a migração significa, portanto, contestar essas estruturas invisíveis que regulam o movimento, reconhecendo o direito universal à mobilidade e a potência transformadora do encontro entre culturas.
O Sul Global, palco principal de expulsão de populações, é também um espaço de resistência e hospitalidade. Decolonizar é, acima de tudo, um ato de solidariedade ativa: é recuperar as narrativas que humanizam o migrante, é desafiar as fronteiras que nos separam e é construir comunidades de acolhimento que celebrem a diversidade como fundamento, não como ameaça.
Este festival é, portanto, mais do que uma exibição de filmes; é um espaço para questionar, debater e agir. É um chamado para enxergarmos no rosto do outro não um estrangeiro, mas um espelho de nossa própria humanidade em um mundo em constante movimento. A construção de um novo paradigma para as migrações não é um processo fácil ou rápido, mas é absolutamente necessário.
LUIZ CARLOS DE OLIVEIRA BORGES_IDEALIZADOR E CURADOR DO FESTIVAL CINEMATO