amauri tangará

Sua trajetória é, em si mesma, uma travessia migratória e que fez da arte o seu território movel, e do olhar atento sobre o Brasil profundo a sua pátria definitiva.

Hoje, quando o nosso festival propõe o tema da sobre migração, nada mais justo do que homenagear o Amauri Tangará, pois poucos artistas brasileiros compreendem, como ele, que migrar não é apenas deslocar-se geograficamente: é também transitar entre linguagens, entre territórios simbólicos, entre modos de ver e contar o mundo.
Nascido no Paraná, Amauri escolheu Mato Grosso para fincar raízes – mas raízes que não o prenderam: ao contrário, deram-lhe asas. De Chapada dos Guimarães, ele partiu para filmar em Portugal, na República Tcheca, em Timor-Leste. Atravessou continentes levando na bagagem não apenas câmeras e roteiros, mas um compromisso inegociável com as histórias que emergem das margens, dos silêncios, dos lugares onde o Brasil se revela em sua potência mais autêntica.
Seu cinema – que recusa o redutor rótulo de “regional” – é, na verdade, um cinema de migrações constantes. Migram as paisagens do Pantanal, do Cerrado e da Amazônia para as telas do mundo. Migram os causos, os saberes e as vozes do povo simples para o território da arte universal. Migram os atores que forma, os alunos que inspira, os espectadores que atravessa com suas narrativas.
Reconhecer a obra de Amauri é entender um testemunho sensível das mudanças que afetam nossos territórios e nossas gentes. Das séries O Pantanal e Outros Bichos ao documentário Nós — A Metade de Tudo, passando pelos longas Ao Sul de Setembro e Nenhures, sua câmera sempre esteve atenta às transformações da paisagem, aos deslocamentos humanos, às fronteiras – reais ou imaginárias – que atravessamos ao longo da vida.
Amauri não migra sozinho. Há mais de cinquenta anos, ele carrega consigo uma multidão. Pelas oficinas de cinema O Terceiro Olhar, realizadas em três continentes, onde mais de mil e duzentas pessoas aprenderam a ver o mundo através das lentes que ele lhes ofereceu. Cada uma dessas pessoas, hoje, carrega um pouco do seu olhar que segue migrando, criando e transformando realidades.
No teatro, foram mais de trinta espetáculos, de Belarmino e o Guardador de Ossos a O Salário dos Poetas (romance homônimo do escritor chapadense Ricardo Guilherme Dick), cada um deles uma travessia entre o texto e a cena, entre a tradição e a invenção. No audiovisual, séries e filmes que mapeiam o Brasil de Norte a Sul, do Araguaia ao Paraguai, do Cerrado à Europa. Amauri nos ensina que migrar é também uma forma de resistir. Resistir ao apagamento das culturas locais, à homogeneização das narrativas, à ideia de que só é universal aquilo que vem dos grandes centros. Seu cinema prova o contrário: é no específico, no particular, no profundamente enraizado que encontramos a chave para tocar o outro, qualquer que seja sua origem. Neste festival que celebra a mobilidade humana e nos convoca a refletir sobre as mudanças climáticas, Amauri Tangará é a figura perfeita para nos lembrar que somos todos, de alguma forma, migrantes. Migramos entre sonhos e realidades. Migramos entre aquilo que fomos e aquilo que desejamos ser. Migramos, sobretudo, em direção ao outro, e é nesse encontro que a arte se faz possível.
Por tudo isso, pelo cinema que inventou, pelo teatro que edificou, pelos artistas que formou, pelo Brasil que revelou, é que temos o prazer de prestarmos esta homenagem.
Amauri Tangará, sua arte é travessia. Seu olhar, morada. Sua vida, uma obra em constante migração.
Que ela siga atravessando fronteiras, formando novos olhares e nos lembrando, sempre, que o lugar mais profundo que podemos habitar é o coração do outro.
Muito obrigado.

No cinema, iniciou em 1997, roteirizando e dirigindo o primeiro media metragem mato-grossense Pobre é quem não tem Jipe e o primeiro longa-metragem A Oitava Cor do Arco-Iris. Os longas Ao Sul de Setembro, Um Rosto em Praga e Nenhures, sete média metragens e outros dois curtas Horizontem e Paraizoo.

Roteirista e diretor das séries O Pantanal e Outros Bichos de 26 episódios de 13min, lançado em 2019, O Cerrado e Outros Bichos de 10 episódios de 26 min – inédito e A Amazônia e Outros Bichos – 13 episódios de 26 min – em produção e Ser Tão Araguaia de 5 episódios de 15 min em 2015.

Curador de três festivais de cinema no Brasil e dois em Portugal, formador nas disciplinas de roteiro, direção, direção de fotografia e edição em sessenta e três oficinas de cinema O Terceiro Olhar, realizadas no Brasil, Portugal e Timor Leste. 

A convite do comissariado português, registrou a atuação de Portugal na 12a Quadrienal de Cenografia e Design de Praga, na República Tcheca em 2011, além de ter sido o diretor de corte para a RTP (TV pública portuguesa) do importante espetáculo Res-Pública, que oficialmente comemorou os 100 anos da República portuguesa.

Como parecerista trabalhei no 1o edital de conteúdos audiovisuais para as TVs Públicas 2015, fui suplente no Edital de Curtas Metragens do MIS – Mato Grosso do Sul, parecerista no edital do FIC do Estado de Mato Grosso do Sul, parecerista para o Audiovisual do Estado de Mato Grosso e Ceará.

longa da homenageada: Pureza